06:45, e o sol ardente do alvorecer queimou minhas retinas que estavam cobertas pelas minhas pálpebras. Se fosse apenas isso, o dia teria sido ótimo.
Tudo aconteceu da maneira tranquila de sempre: coloquei meu judogui, colei uns esparadrapos no dedo machucado, e segui a pé o meu caminho. Subi cerca de 1,5Km (não poderia ser de outra forma, pois não há paradas de ônibus na Rua 03). O sol estava ainda menos piedoso, e agora era a minha nuca que ardia. De longe eu avistei a parada da esquina da Rua 08 com a 05 esvaziando-se, lá pelas 07:30 da manhã. Sim, o tal ônibus estava passando. Corri como se não houvesse amanhã, e numa tentativa frustrada tentei assobiar. Era lógico que eu teria que esperar mais quarenta minutos pelo próximo. Sentei no banco sujo de poeira pelo vento que os carros e caminhões traziam em suas velocidades acima do limite, nessa estrada sem quebra-molas.
O ônibus estava para chegar, quando um amigo acenou, gritou e depois foi embora em seu carro. Eu deveria ter pego uma carona com ele, mas a Lei de Murphy é cruel e estava agindo como tal. E lá vinha o 355.3, quase vazio. Entrei, paguei minha passagem, e sentei nem tão lá atrás, nem muito na frente. De repente o motorista parou o ônibus e alguns segundos de silêncio depois o pancadão singular da banda TerraSamba ecoou o carro inteiro. Pessoas que dormiam (eu), acordaram assustados. O motorista tinha uma espécie de caixa com um CDPlayer embutido, e um som tão potente quanto o meu próprio MycroSystem. A viagem seguiu-se no ritmo de variados estilos: TerraSamba, É o Tchan!, e até Amado Batista.
Depois de ter contado até 10, 100 vezes, consegui chegar ao meu destino, feliz, sem ter sofrido nenhum tipo de derrame, ou lavagem cerebral. Caminhei rindo sozinho, até juntei um pedaço de plástico sujo e coloquei na lixeira mais próxima. Não muito longe da escola a sandália que eu usava, arrebentou. Sim, nem mesmo ela resistiu ao som pesado. Suicidou-se. E eu fiquei de luto até as 17:00. A sola do meu pé ficou preta, como prova.
Crônica de Angel Holanda e fotos por Renato Oliveira
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